
A compra de imóveis está sendo influenciada por fatores que vão muito além de preço, localização e condições de financiamento.
Dessa forma, riscos climáticos, mudanças no crédito e novas pressões sobre o orçamento das famílias também começam a pesar na decisão de onde e como morar.
Uma pesquisa recente mostrou que 40% dos brasileiros já descartaram um imóvel ou uma região por questões relacionadas ao clima, percentual que chega a 51% entre os moradores da região Sul.
Ao mesmo tempo, o mercado acompanha discussões sobre o novo modelo do SBPE, o crescimento do seguro-fiança, os possíveis reflexos do fim das apostas esportivas sobre aluguel e crédito e a retomada do IGP-M, que pode reajustar contratos de locação em 3,34%.
Neste artigo, você vai entender como clima, crédito, renda e inflação estão mudando as decisões de compra e locação de imóveis e quais impactos esses movimentos podem trazer para o mercado imobiliário.
Assuntos que você irá encontrar:
- CBIC pede adiamento do novo modelo do SBPE para 2028;
- Seguro-fiança cresce 30,6% com avanço do mercado de aluguel;
- Riscos climáticos já influenciam 40% na compra de imóveis;
- Como o fim das bets pode afetar aluguel e crédito imobiliário;
- IGP-M volta a subir e pode reajustar aluguéis em 3,34%.
CBIC pede adiamento do novo modelo do SBPE para 2028
A Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) pediu ao Ministério da Fazenda e ao Banco Central que a entrada em vigor integral do novo modelo do Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE) seja adiada de janeiro de 2027 para janeiro de 2028.
A entidade defende mais um ano de testes antes da implementação definitiva e também solicita a manutenção do teto de juros de 12% ao ano nos financiamentos pelo Sistema Financeiro da Habitação (SFH).
O principal argumento é que a transição acontece em um momento de juros ainda elevados e de maior dificuldade de acesso ao crédito, principalmente para famílias de classe média.
Atualmente, o SBPE utiliza os recursos depositados na poupança como uma das principais fontes para o financiamento imobiliário. Pelas regras atuais, os bancos precisam direcionar 65% desse saldo ao crédito habitacional.
O novo modelo, anunciado em 2025, busca reduzir essa dependência e ampliar o uso de outras fontes de captação no mercado.
A proposta prevê que 80% dos recursos sejam destinados a operações do SFH, mas a CBIC sugere elevar essa participação para 90%, deixando os outros 10% para demais operações imobiliárias.
Segundo estimativa da entidade, essa alteração poderia disponibilizar cerca de R$75 bilhões adicionais para financiamentos com taxas de até 12% ao ano, destinados a imóveis de até R$2,25 milhões.
Um dos principais pontos levantados pela entidade é o impacto da transição sobre os compradores de renda intermediária.
Isso porque, segundo pesquisas internas, a classe média representa cerca de 61% da oferta final de imóveis no país, mas vem enfrentando maior dificuldade para assumir novos financiamentos depois de um período prolongado de juros elevados.
O setor também teme que uma maior dependência de recursos captados no mercado aumente o custo dos financiamentos, já que diferente da poupança, essas fontes acompanham mais diretamente os juros de longo prazo e podem sofrer maior volatilidade, pressionando as taxas cobradas dos compradores.
Apesar das preocupações, os dados recentes do SBPE mostram avanço na concessão de crédito. Entre janeiro e julho de 2026, os financiamentos para aquisição e construção chegaram a R$115,5 bilhões, crescimento de 36% em relação ao mesmo período de 2025.
Na aquisição de imóveis, o volume passou de R$69,2 bilhões para R$81,7 bilhões, enquanto os recursos destinados à construção mais que dobraram, de R$15,6 bilhões para R$33,8 bilhões.
O novo modelo já está sendo testado pelo Banco Central desde o fim de 2025, com a utilização de parte dos recursos da poupança que antes permaneciam recolhidos como compulsórios.
Para a CBIC, os primeiros resultados mostram que a mudança pode ampliar as fontes de financiamento, mas ainda é necessário acompanhar seu funcionamento em diferentes cenários de juros antes da implementação definitiva.
A proposta agora segue em discussão com o Ministério da Fazenda e o Banco Central.
Seguro-fiança cresce 30,6% com avanço do mercado de aluguel

No primeiro semestre de 2026, as seguradoras arrecadaram R$1,2 bilhão, alta de 30,6% em relação ao mesmo período de 2025, segundo dados citados pela Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg), mantendo o ritmo de crescimento do seguro-fiança.
As indenizações também avançaram, chegando a R$380,3 milhões, crescimento de 31,1% na comparação anual.
O movimento dá continuidade à expansão observada nos últimos anos: em 2025, a modalidade movimentou cerca de R$2 bilhões, quase quatro vezes os R$510 milhões registrados em 2019.
Segundo o IBGE, a parcela da população que vive em imóveis alugados passou de aproximadamente 12,6% em 2000 para 20,9% em 2022. No último Censo, eram 42,2 milhões de pessoas distribuídas em 16,1 milhões de domicílios alugados.
Fatores como juros elevados, dificuldade de acesso à casa própria e busca por maior flexibilidade ajudam a explicar o aumento da procura por aluguel e, consequentemente, por soluções que facilitem a formalização dos contratos.
O seguro-fiança substitui a necessidade de um fiador e garante ao proprietário o recebimento de aluguéis e outros encargos previstos em contrato em caso de inadimplência.
Para o inquilino, a principal vantagem está em não depender de parentes ou conhecidos para viabilizar a locação.
A modalidade vem ganhando participação principalmente nos grandes centros, onde as relações de aluguel tendem a ser mais profissionalizadas. Segundo o Creci-SP, o custo costuma ficar em torno de 1,5 aluguel por ano.
Em São Paulo, o seguro-fiança já aparece como a principal garantia utilizada em contratos residenciais.
Em uma pesquisa realizada pelo Creci-SP em julho, a modalidade esteve presente em 36,5% dos contratos de casas e apartamentos, à frente do depósito-caução, com 28,2%, e do fiador, com 22,9%.
Para imobiliárias e administradoras, o avanço mostra uma mudança na forma como proprietários e inquilinos estruturam as garantias da locação.
Com um mercado de aluguel maior e mais profissionalizado, soluções que reduzem riscos e simplificam a contratação tendem a ganhar cada vez mais espaço.
Riscos climáticos já influenciam 40% na compra de imóveis
Os riscos climáticos passaram a ter peso maior na decisão de compra e locação de imóveis no Brasil.
Segundo a pesquisa Brain Behavior, 40% dos entrevistados já deixaram de considerar um imóvel ou determinada região por questões relacionadas ao clima, quase o dobro dos 22% registrados no ano anterior.
Entre os principais motivos de descarte, o risco de enchentes e alagamentos aparece em primeiro lugar, citado por 31% dos entrevistados.
Embora ondas de calor sejam o fenômeno percebido com mais frequência no cotidiano, com 68% das respostas, elas têm impacto menor na decisão efetiva de abandonar uma opção de moradia.
O levantamento também mostra que 27% dos brasileiros consideram os riscos climáticos muito influentes ou decisivos na escolha de onde morar, enquanto 31% avaliam que eles exercem influência baixa ou moderada. Outros 42% afirmam que o tema ainda não interfere diretamente na decisão.
Sul é a região mais impactada pelos riscos climáticos
Na região Sul do país, 51% dos entrevistados já descartaram um imóvel ou localização por questões climáticas, e 44% apontam enchentes e alagamentos como principal motivo.
Além disso, 48% dizem que os riscos climáticos influenciam muito ou são decisivos na escolha da moradia, o maior índice entre as regiões brasileiras.
A percepção também reflete a recorrência de eventos extremos na região: 70% dos entrevistados dizem perceber chuvas intensas e tempestades com frequência, enquanto 49% relatam enchentes e alagamentos.
Outro dado que chama atenção é a avaliação sobre o preparo das cidades e do próprio mercado.
Para 69% dos entrevistados, as cidades brasileiras não estão preparadas para lidar com os impactos das mudanças climáticas, enquanto 61% avaliam que o setor imobiliário também não está preparado. Em 2025, essa percepção negativa sobre o setor era de 33%.
Ao mesmo tempo, atributos relacionados à sustentabilidade ganham importância: 66% acreditam que imóveis com soluções sustentáveis terão forte valorização no futuro, e entre os aspectos mais desejados aparecem áreas verdes próximas, boa arborização e conforto térmico.
Para o mercado imobiliário, os dados mostram que o risco climático deixou de ser apenas uma preocupação ambiental e passou a fazer parte dos critérios de escolha do consumidor.
Portanto, localização, histórico de enchentes, infraestrutura urbana e soluções de adaptação tendem a ganhar cada vez mais relevância na percepção de valor e na decisão de compra ou locação.
Como o fim das bets pode afetar aluguel e crédito imobiliário
A proibição das apostas de quota fixa no Brasil pode produzir efeitos que vão além do próprio setor de jogos.
Para o mercado imobiliário, a principal questão está no espaço que as apostas vinham ocupando no orçamento das famílias, competindo com despesas como aluguel e comprometendo, em alguns casos, a capacidade de acesso ao crédito.
Segundo dados apresentados pelo Banco Central, os brasileiros movimentavam entre R$20 bilhões e R$30 bilhões por mês em apostas. Esse volume ajuda a dimensionar por que o comportamento passou a chamar atenção também de empresas ligadas à locação e ao financiamento imobiliário.
Uma pesquisa feita por uma empresa do setor com 1,3 mil inquilinos mostrou que, entre aqueles que apostavam, 13% afirmaram já ter atrasado ou deixado de pagar o aluguel diretamente por causa das apostas.
Outros 10% relataram dificuldades para manter o pagamento em dia, ainda que sem chegar à inadimplência.
Os próprios dados exigem cautela: perda de renda, endividamento e outros fatores também influenciam o atraso do aluguel. As apostas aparecem como um elemento adicional de pressão sobre o orçamento, e não como explicação única para a inadimplência.
O impacto pode chegar também ao financiamento da casa própria. Um levantamento do Sicredi com 1,3 milhão de associados encontrou uma inadimplência 40% maior entre pessoas que apostaram ao longo de 2025 em comparação com aquelas que não realizaram apostas.
O histórico financeiro faz parte da análise de risco realizada pelas instituições antes da concessão de crédito.
Assim, mesmo quando a renda é compatível com determinado financiamento, gastos recorrentes, endividamento e atrasos podem reduzir a capacidade de crédito ou dificultar a aprovação.
Para incorporadoras, imobiliárias, corretores e correspondentes bancários, esse comportamento pode significar jornadas de compra mais longas e maior risco de negócios não avançarem por restrições de crédito.
Ainda não é possível afirmar que a proibição das bets fará esse dinheiro migrar automaticamente para aluguel, poupança ou entrada da casa própria.
Parte da demanda pode desaparecer, enquanto outra pode migrar para plataformas clandestinas, mantendo a pressão sobre o orçamento das famílias.
Para o mercado imobiliário, o principal sinal é que hábitos financeiros aparentemente distantes do setor podem interferir diretamente na capacidade de pagar aluguel e obter financiamento.
O efeito da proibição dependerá de como o comportamento dos consumidores mudará nos próximos meses e de quanto desse recurso voltará efetivamente para o orçamento familiar.
IGP-M volta a subir e pode reajustar aluguéis em 3,34%
O Índice Geral de Preços - Mercado (IGP-M) voltou a acelerar em setembro e registrou alta de 1,57% no mês, interrompendo uma sequência de três quedas consecutivas.
Com o resultado, o índice acumula 3,34% em 12 meses, maior percentual do último ano.
Como o IGP-M ainda é utilizado como referência em parte dos contratos de locação, esse pode ser o reajuste aplicado aos aluguéis com aniversário em outubro, caso o índice esteja previsto no contrato e seja utilizado integralmente.
Na prática, um aluguel de R$1.500 reajustado por 3,34% passaria para aproximadamente R$1.550,10 pelos 12 meses seguintes.
A aceleração também aparece no acumulado de 2026, e entre janeiro e setembro, o IGP-M soma alta de 3,45%, depois de passar por meses de fortes oscilações ao longo do ano.
Produtor e consumidor puxam alta do IGP-M
Segundo a Fundação Getulio Vargas, a alta de setembro não ficou concentrada em apenas uma parte do índice.
O Índice de Preços ao Produtor Amplo (IPA) avançou 2,08% após recuar 0,34% em agosto, enquanto o Índice de Preços ao Consumidor (IPC) passou de queda de 0,41% para alta de 0,50%.
No atacado, matérias-primas como soja, milho e carne bovina estiveram entre as principais pressões. Já no índice ao consumidor, a energia elétrica contribuiu para a retomada da inflação no período.
O movimento foi diferente na construção civil, e o Índice Nacional de Custo da Construção (INCC) desacelerou de 0,85% em agosto para 0,25% em setembro.
Para o mercado de locação, a retomada do IGP-M aumenta a atenção sobre os contratos que ainda utilizam o indicador como referência.
Portanto, proprietários, inquilinos e imobiliárias precisam observar o índice previsto em cada contrato, já que o reajuste não é automático e depende das condições acordadas entre as partes.
Se você chegou até aqui e quer se manter atualizado sobre o mercado imobiliário, inscreva-se na Newsletter da Jetimob e receba toda segunda-feira as principais novidades do setor!