Imóveis retomados somam cerca de R$ 10 bilhões nos bancos

Corretor imobiliário calculando valor de imóveis retomados em 2026.

O mercado imobiliário segue mostrando movimentos importantes em diferentes frentes, desde o avanço dos programas habitacionais até mudanças no crédito, no perfil dos lançamentos e na oferta de imóveis pelos bancos.

Um dos destaques está no volume de imóveis retomados, que soma cerca de R$10 bilhões entre os maiores bancos do país. A Caixa concentra a maior parte desse estoque, com mais de 24 mil unidades disponíveis para venda.

Ao mesmo tempo, o setor acompanha a expansão do Minha Casa Minha Vida em Porto Alegre, os possíveis impactos da greve da Caixa sobre financiamentos e a nova saída de recursos da poupança imobiliária, que aumenta a pressão sobre uma das principais fontes de funding do crédito habitacional.

Além disso, também se destaca a mudança no perfil dos novos empreendimentos em São Paulo, onde imóveis econômicos e compactos devem representar a maior parte das entregas previstas para 2026.

Neste artigo, você vai entender o que está por trás do aumento dos imóveis retomados, como crédito, habitação econômica e novos lançamentos estão se movimentando e quais impactos essas mudanças podem trazer para o mercado imobiliário.

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Porto Alegre lidera lançamentos do Minha Casa Minha Vida no Sul do país

Porto Alegre passou a ocupar uma posição de destaque no Minha Casa Minha Vida e, em 2026, já é a cidade da região Sul com o maior número de lançamentos do programa. Até agora, foram 2.106 novas unidades, superando Londrina, que havia liderado esse movimento nos dois anos anteriores.

O avanço já vinha sendo observado em 2025, quando a capital gaúcha registrou 3.311 unidades lançadas pelo programa, crescimento de 74% em relação a 2024. 

A expansão acontece em um cenário marcado tanto pela reconstrução após as enchentes quanto pela ampliação do acesso ao financiamento habitacional para diferentes faixas de renda.

Um dos fatores que ajudam a explicar esse crescimento é a criação da Faixa 4 do programa, que ampliou o alcance do programa para famílias de renda mais elevada. 

Com os juros ainda altos, esse enquadramento passou a atender também compradores de classe média que encontravam dificuldades para financiar o primeiro imóvel pelas linhas tradicionais.

Ao mesmo tempo, a demanda por habitação econômica permanece elevada. 

Segundo estimativas apresentadas pelo mercado local, cerca de 90% da demanda habitacional da cidade pode se enquadrar nas regras do programa, o que tem levado incorporadoras a rever estratégias e até destinar terrenos antes planejados para empreendimentos de médio padrão a projetos do MCMV.

Essa mudança pode ampliar a presença de imóveis econômicos em regiões mais valorizadas ou melhor conectadas à infraestrutura urbana. 

Áreas anteriormente destinadas a apartamentos de tíquete mais alto passam a ser consideradas para unidades na faixa de R$300 mil, alterando a distribuição dos novos empreendimentos pela cidade.

Reconstrução também impulsiona novos projetos

A expansão do programa na capital gaúcha também está diretamente relacionada aos impactos das enchentes de 2024. Segundo dados municipais, 20.781 domicílios foram parcial ou totalmente danificados, aumentando a necessidade de novas soluções habitacionais.

Além disso, o governo federal anunciou R$3,5 bilhões para construção de moradias no Rio Grande do Sul, sendo R$1,2 bilhão destinado a Porto Alegre, além de outros R$512 milhões ainda esperados pela capital. 

Entre as medidas adotadas, famílias atingidas com renda mensal de até R$4,7 mil puderam acessar imóveis de até R$200 mil custeados pelo governo, enquanto outras faixas receberam financiamento subsidiado e abatimentos.

O governo estadual também passou a complementar esse movimento por meio do programa Porta de Entrada, que oferece subsídio de R$20 mil para famílias com renda de até cinco salários mínimos adquirirem imóveis pelo Minha Casa Minha Vida.

O efeito dessas políticas já aparece no desempenho das incorporadoras, e no primeiro semestre de 2026, por exemplo, as vendas da MRV em Porto Alegre cresceram 40% em relação ao mesmo período do ano anterior.

Para o mercado imobiliário, o cenário mostra como programas habitacionais, subsídios e disponibilidade de crédito podem alterar rapidamente o perfil dos lançamentos de uma cidade. 

Em Porto Alegre, a combinação entre demanda reprimida, reconstrução e novas faixas do MCMV vem ampliando o espaço da habitação econômica e criando oportunidades tanto na capital quanto em municípios próximos.

Bancos concentram cerca de R$ 10 bilhões em imóveis retomados

Os cinco maiores bancos do país mantinham cerca de R$11 bilhões em ativos disponíveis para venda no fim de junho de 2026, segundo estimativa do levantamento Mapa Resale. 

Desse total, aproximadamente R$10 bilhões seriam formados por imóveis retomados após operações de crédito não pagas.

O levantamento identificou 27.004 imóveis, considerando os dados disponíveis de Caixa, Santander, Banco do Brasil e Bradesco. A Caixa Econômica Federal concentra a maior parte desse estoque, com 24.572 unidades e cerca de R$6,03 bilhões em ativos mantidos para venda.

Na sequência aparecem Bradesco, com R$2,53 bilhões em ativos, Santander, com R$1,59 bilhão, Itaú, com R$598 milhões, e Banco do Brasil, com R$302 milhões. No caso do Itaú, o levantamento não apresenta o número de unidades disponíveis.

Esses imóveis chegam ao estoque dos bancos principalmente após processos de retomada relacionados a financiamentos que deixaram de ser pagos. 

Para as instituições, manter essas propriedades representa custos com administração, conservação e comercialização, o que torna a venda uma etapa importante para recuperar parte do crédito concedido.

Apesar de os valores chamarem atenção, o estoque estimado de imóveis retomados corresponde a cerca de 0,7% dos R$1,455 trilhão em financiamentos imobiliários existentes no país.

Segundo a Abecip, essa proporção permanece baixa, enquanto os contratos com atrasos de até 90 dias seguem em níveis historicamente reduzidos, mesmo em um cenário de Selic elevada.

Também é importante considerar que o crescimento ou a redução do estoque de imóveis retomados não indica, isoladamente, uma alta ou queda da inadimplência. 

O volume disponível depende de diferentes fatores, como a entrada de novos imóveis, a velocidade de venda, baixas e reclassificações realizadas pelas instituições financeiras.

O próprio Mapa Resale deve ser interpretado como uma estimativa, já que os bancos não divulgam de maneira padronizada quanto dos ativos disponíveis para venda corresponde especificamente a imóveis.

Para o mercado imobiliário, acompanhar esse estoque ajuda a entender melhor um segmento que movimenta milhares de propriedades e pode gerar oportunidades para compradores e investidores. 

Para os bancos, acelerar a comercialização desses imóveis significa reduzir custos, recuperar crédito e transformar ativos retomados novamente em recursos financeiros.

Greve da Caixa pode atrasar financiamentos imobiliários

Imagem da fachada da sede da Caixa Econômica Federal.

A greve dos funcionários da Caixa pode aumentar o prazo de conclusão de financiamentos imobiliários e afetar diferentes etapas da compra de um imóvel, desde a análise de crédito até a assinatura do contrato e a liberação dos recursos ao vendedor.

Mesmo com a digitalização de parte da jornada, diversas fases ainda dependem da atuação do banco. 

Por isso, a paralisação pode impactar tanto quem está iniciando um pedido de crédito quanto compradores que já tiveram o financiamento aprovado e aguardam apenas etapas finais da operação.

O risco é que um atraso em uma dessas fases provoque efeitos em sequência. Depois da aprovação do crédito, por exemplo, ainda podem ser necessários a elaboração e assinatura do contrato, o registro no Cartório de Registro de Imóveis e, posteriormente, a liberação do valor financiado.

Caso a paralisação se prolongue, também existe a possibilidade de certidões e outros documentos perderem a validade, exigindo novas emissões e aumentando o tempo necessário para concluir a compra.

Além disso, os reflexos podem continuar mesmo após o encerramento da greve, já que o acúmulo de processos durante o período de paralisação pode gerar uma fila de análises, assinaturas e liberações pendentes.

Financiamento aprovado também pode sofrer atrasos

Vale lembrar que ter o crédito aprovado não significa necessariamente que a operação estará protegida dos efeitos da greve. 

Portanto, processos que já avançaram para as etapas finais podem permanecer parados enquanto aguardam assinatura, registro ou liberação dos recursos.

Esse cenário pode impactar o pagamento ao vendedor, a entrega das chaves e até os prazos estabelecidos no contrato de compra e venda.

Também não existe uma regra geral que suspenda automaticamente os prazos contratuais durante uma paralisação bancária. Por isso, a responsabilidade por eventuais multas, juros ou correções dependerá das condições previstas em cada contrato e da identificação de quem efetivamente provocou o atraso.

Quando o comprador já cumpriu todas as obrigações sob sua responsabilidade e a conclusão depende exclusivamente de uma providência da instituição financeira, pode haver espaço para discutir eventuais cobranças decorrentes do atraso. Ainda assim, cada situação precisa ser analisada individualmente.

A principal recomendação é registrar todas as etapas do financiamento, mantendo protocolos, comprovantes de envio de documentos, aprovações de crédito, e-mails, mensagens e registros de atendimento.

Também é importante comunicar formalmente todas as partes envolvidas caso exista risco de descumprimento de algum prazo por causa da paralisação e, quando possível, uma prorrogação deve ser negociada e registrada entre as partes.

Saída da poupança aumenta pressão sobre crédito imobiliário

A poupança do Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE) registrou saída líquida de R$9,51 bilhões em agosto, segundo dados do Banco Central. 

O resultado foi o segundo pior de 2026, atrás apenas de janeiro, quando os saques superaram os depósitos em R$18,81 bilhões.

A piora também dá continuidade a uma sequência de três meses no negativo. Depois de uma saída de R$1,40 bilhão em junho e de R$6,95 bilhões em julho, o déficit aumentou novamente em agosto. 

Entre junho e agosto, a retirada líquida acumulada chegou a R$17,86 bilhões.

O movimento chama atenção porque o SBPE é uma das principais fontes utilizadas pelos bancos para financiar imóveis no país. 

Quando as retiradas superam os depósitos, há menos entrada de novos recursos nessa fonte tradicional, o que pode aumentar a pressão sobre o funding do crédito imobiliário.

Apesar disso, a saída da poupança ainda não provocou uma retração nas concessões, e entre janeiro e julho, o crédito imobiliário com recursos do SBPE alcançou R$115,5 bilhões, crescimento de 36,3% em relação ao mesmo período de 2025

Somente em julho, foram R$20,96 bilhões financiados, o melhor resultado para o mês na série histórica.

Já em agosto, os depósitos no SBPE somaram R$309,62 bilhões, enquanto as retiradas chegaram a R$319,14 bilhões. 

Na comparação com julho, ambos os fluxos diminuíram, mas os depósitos recuaram com mais intensidade, o que ajuda a explicar a piora da captação líquida.

No acumulado de janeiro a agosto, a captação líquida ficou negativa em R$47,03 bilhões. 

Ainda assim, o saldo total da poupança imobiliária encerrou agosto em R$757,19 bilhões, acima dos R$752,49 bilhões observados no fim de janeiro, sustentado também pelos rendimentos creditados aos poupadores.

Outro ponto importante é que o déficit acumulado em 2026 ainda é 2,7% menor do que o registrado no mesmo período de 2025. Por isso, mais do que o resultado isolado de agosto, o principal sinal de atenção está na sequência recente de retiradas e na aceleração do déficit desde junho.

Para o mercado imobiliário, a questão passa a ser como os bancos vão sustentar a expansão dos financiamentos caso a saída de recursos da poupança continue. 

Nesse cenário, outras fontes de funding tendem a ganhar ainda mais importância para manter a disponibilidade de crédito, especialmente enquanto os juros permanecem elevados.

Seis em cada dez novos condomínios de SP são econômicos ou compactos

Os novos condomínios de São Paulo previstos para 2026 mostram um mercado cada vez mais concentrado em imóveis econômicos e unidades compactas. 

Dos cerca de 620 empreendimentos com entrega prevista para o ano, 60% pertencem a esses dois segmentos, segundo levantamento do Data Lello.

Os imóveis enquadrados dentro do teto do Minha Casa, Minha Vida representam 37% das entregas previstas, enquanto apartamentos compactos, categoria que inclui os estúdios, respondem por outros 23%.

A distribuição desses empreendimentos também revela uma concentração geográfica. As zonas Sul e Leste devem receber juntas 65% dos novos condomínios da capital, sendo 34% na Zona Sul e 31% na Zona Leste.

O movimento acompanha a própria configuração atual do mercado paulistano, visto que das aproximadamente 32,4 mil unidades condominiais formalizadas na cidade, 63% já estão localizadas nessas duas regiões, reforçando a participação delas na expansão imobiliária da capital.

Nas demais regiões, a Zona Oeste deve concentrar 16% das entregas previstas para 2026, seguida pela Zona Norte, com 12%, e pelo Centro, com 7%.

Além dos empreendimentos econômicos e compactos, 22% das entregas são classificadas como standard, 9% como médio padrão, 4% como alto padrão, 3% como luxo e 2% como superluxo.

Para o mercado imobiliário, os dados reforçam uma tendência de maior participação de imóveis com tíquete mais acessível e metragens reduzidas, acompanhando tanto o avanço do Minha Casa, Minha Vida quanto às mudanças no perfil de quem busca morar ou investir em São Paulo.

A concentração nas zonas Sul e Leste também mostra como localização, infraestrutura e capacidade de absorção da demanda seguem determinantes para a expansão de novos projetos na cidade.

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